Salomão Fiquene

Cadeira 29

Salomão Fiquene

DADOS BIOGRÁFICOS DE SALOMÃO FIQUENE, Patrono da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes – AICLA, Cadeira 29, atualmente ocupada pelo economista e poeta JOSEMAR SOUSA LIMA

Dentre os numerosos migrantes libaneses que chegaram ao Brasil, nos primórdios do século passado, figuravam os irmãos ROQUE e ELIAS DARWICH FIQUENE.

Presume-se que tenham desembarcado no porto do Rio de Janeiro por volta de 1905. Após longo e cansativo roteiro, realizado em duas etapas, em que trocaram a pátria de origem por outra literalmente desconhecida, alcançaram o Maranhão, na certeza de que aqui se dariam bem, pois era esse o sentimento que os dominava, com base nas informações prestadas pelos patrícios, que os aconselharam a vir para cá.

A chegada dos irmãos FIQUENE no Maranhão, não era, portanto, uma aventura. Era um projeto de vida, que tinha como referência o vale do Itapecuru, onde as terras eram abundantes e nelas morava um povo hospitaleiro, sendo uma região promissora para quem desejava trabalhar com afinco e tenacidade.

Desembarcados no porto de São Luís partiram, no primeiro vapor, com destino à cidade de Itapecuru Mirim, sendo recebidos de braços abertos pelos patrícios, alguns já em plena prosperidade, a exemplo de Basílio Simão, o qual, segundo o professor Wady Sauáia, no livro Cenas que Ficam, “ajudava e protegia os árabes recém-chegados.

Ao contrário de outros patrícios, que começaram a ganhar dinheiro como mascates, os irmãos FIQUENE, mercê de razoável poupança trazida do Líbano, partiram para a instalação de um estabelecimento comercial de pequeno porte, na famosa Rua do Egito, a principal de Itapecuru, onde os árabes moravam e negociavam.

Bem estabelecido comercialmente, ROQUE FIQUENE, que era casado, decidiu trazer a esposa ZAFIRA, que ficara no Líbano.

O elevado grau de apreço por Itapecuru fez o casal, de comum acordo, pensar na geração de um filho.

Após nove meses de ansiedade, a 27 de outubro de 1907, para alegria e satisfação do casal libanês, nascia um menino, de parto normal, que recebeu o nome de SALOMÃO.

Nascido, batizado e criado em Itapecuru Mirim, onde passou boa parte da infância, recebeu ali o melhor que a cidade poderia lhe oferecer em matéria de instrução. As duas melhores professoras do município – ZUMIRA FONSECA e MARIANA LUZ -, foram mobilizadas para alfabetizá-lo e prepará-lo para um futuro radioso.

O garoto tinha 10 anos quando ROQUE FIQUENE e ZAFIRA, consensualmente, resolveram deixar a terra que os abrigou durante bom tempo e onde ganharam um bom dinheiro.

Para cumprir o objetivo principal de sua vinda para São Luís, ROQUE matriculou o filho no Instituto Maranhense, do professor Oscar Barros, sendo, em seguida, transferido para o Colégio São Luís Gonzaga, da provecta professora Zuleide Bogéa, onde concluiu o curso primário.

Em continuidade aos estudos, fez o curso secundário em três estabelecimentos educacionais, concluindo no Liceu Maranhense.

Em 1924, logrou aprovação no rigoroso vestibular da Faculdade de Medicina da Bahia, onde só ficou um ano. Em 1925, surgiu a excepcional oportunidade de transferir-se para a famosa Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Em 28 de dezembro de 1929, recebeu o diploma de médico, mas continuou no Rio de Janeiro, porque as portas do universo científico e acadêmico se abriram para ele de modo fantástico. Por meio de concursos, chegou ao Instituto Oswaldo Cruz, ao corpo docente da Universidade do Brasil, como professor de parasitologia, ao corpo médico do Exército, da Santa Casa de Misericórdia e da Policlínica do Rio de Janeiro, onde prestou inestimáveis serviços e absorveu conhecimentos valiosos, que serviram de base para despontar como profissional gabaritado. Depois de cinco anos de intensa atividade como médico e professor, resolveu acabar com a solidão que o acompanhava no Rio de Janeiro. Veio a São Luís com a finalidade explícita de contrair matrimônio com a jovem e bonita VICTÓRIA METRE, sua namorada desde os tempos de estudante secundarista.

A 28 de janeiro de 1933, uniram-se diante de Deus e da Lei. Após a solenidade nupcial retornaram para a Cidade Maravilhosa, onde ele continuaria a ensinar e receber o reconhecimento de notáveis mestres, do nível de Carlos Chagas, que não economizou elogios ao analisar o trabalho de sua lavra “Doenças de Nicolau Fevre”, sobre o tratamento da doença pelo uso de sais de ouro.

Em 1936, por motivos estritamente particulares, foi compelido a deixar o Rio de Janeiro, vindo morar definitivamente em São Luís, na companhia da esposa VICTÓRIA e das filhas cariocas LÍLIA e LÉA.

SALOMÃO FIQUENE encontrava-se em plena atividade acadêmica, quando, por efeito da redemocratização do país, anunciaram-se as eleições para a Câmara Municipal de São Luís, marcadas para 25 de dezembro de 1947.

O Partido Social Trabalhista, fundado pelo Senador Victorino Freire, desejava eleger uma bancada expressiva de vereadores. Figuras representativas da sociedade foram convidadas para integrar a chapa do PST.

Ele aceitou o desafio, filiou-se ao PST, concorreu ao pleito e elegeu-se com expressiva votação.

Na Câmara teve um desempenho parlamentar significativo, a ponto de ser incluído na chapa do PST para disputar as eleições para a Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão.

Ainda que bem sufragado nas urnas, especialmente em Itapecuru, sua terra natal, cujo prefeito era o primo Miguel Fiquene, não conseguiu o número suficiente de votos para se eleger, dando por encerrada sua participação na vida política estadual que, embora curta, foi proveitosa, pois conheceu outras experiências de vida e de trabalho.

Pelos títulos conquistados e pelos trabalhos apresentados, sempre voltados para a melhoria da qualidade de vida da humanidade, tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina, da Sociedade de Medicina do Maranhão, sendo desta presidente várias vezes, do Conselho Deliberativo da Associação Médica Brasileira, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, da Sociedade Brasileira de Química e da Sociedade de Astronomia da França.

Por dominar fluentemente os idiomas francês, inglês, espanhol, italiano e alemão, marcou presença em numerosos simpósios e seminários nacionais e internacionais, para proferir palestras ou apresentar trabalhos de cunho médico-científico. Alguns desses trabalhos, pela importância e abrangência universal foram publicados em revistas e livros de expressão acadêmica.

Após sua aposentadoria, como professor catedrático da Universidade Federal do Maranhão, em 1973, com a relevante bagagem científica que portava, candidatou-se à Academia Maranhense de Letras.

Membro da Academia Maranhense de Letras, foi eleito em 4 de novembro de 1967 e tomou posse em 12 de março de 1968, sendo recepcionado pelo Professor Rubem Almeida, foi seu Vice-Presidente, ocupando a cadeira número 21, patroneada por Maranhão Sobrinho, fundada por Antônio Lopes e vaga com a morte de Isaac Ferreira, até poucos meses antes de falecer, onde dominou sempre com sua presença infalível, expressiva e gentil. Em 1983, publicou a sua última obra literária, “Palestinos e seus Primos Judeus”.

Em 1978, elegeu-se para o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, ocupando a Cadeira nº 24, patroneada por Antônio Enes de Almeida e desfalcada pelo falecimento de do professor José Silvestre Fernandes.

No exercício das atividades culturais, legou ao Maranhão e ao Brasil, uma vasta bibliografia, na qual despontam publicações do nível de Ao País dos Cedros Eternos, A República Árabe Unida, Aquiles Lisboa – Grande Médico do seu Tempo, Dr. Neto Guterres – Símbolo da Generosidade do seu Tempo, Caxias – O Pacificador e Palestinos e seus Primos Judeus, sua última obra literária.

Nascido na cidade maranhense de Itapecuru Mirim, em 27 de outubro de 1907, Salomão Fiquene formou-se pela Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, antiga Universidade do Brasil, na qual veio a ser Professor-Assistente, Doutor e Docente Livre. Especializou-se em Parasitologia, Biologia Médica, Microbiologia, Imunologia, sendo diplomado em primeiro lugar no Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos), do Rio de Janeiro. Foi Professor de Parasitologia em vários cursos promovidos pelo Departamento Nacional de Saúde, assim como de tomologia na hoje extinta Escola de Agronomia do Maranhão.

Foi também Professor Catedrático e Diretor da Faculdade de Farmácia e Odontologia de São Luis; Professor da Faculdade de Filosofia e Serviço Social e Diretor do Instituto Oswaldo Cruz do Maranhão, quando iniciou a fase áurea para o referido Instituto, no qual além dos serviços de rotina sanitária e clínica, passou a produzir vacinas antivariólica, antitífica e antirrábica em grande escala, fornecendo as primeiras doses para vários estados do norte e nordeste do Brasil.

Relevante notar, que a vacina antitífica era preparada através de técnica maranhense, baseada em estudos de autores russos, romenos e franceses, estudos devidamente experimentados pelo nosso conterrâneo Salomão Fiquene, que publicou suas conclusões nos Arquivos de Higiene do Departamento Nacional de Saúde.

Informado sobre a nova técnica e vantagens práticas da vacina, na época, o Professor Barros Barreto, então Diretor do Departamento Nacional da Saúde, de passagem pelo o Maranhão, deu ao nosso cientista a maior prova de confiança; mandou que o Dr. Fiquene lhe aplicasse uma injeção da vacina.

Salomão Fiquene foi, ainda, Diretor da Divisão de Serviços Técnicos Centrais do Departamento Estadual de Saúde, Tesoureiro da Fundação Paulo Ramos, membro da Comissão de Estudos da Universidade Federal do Maranhão, da qual recebeu o título de Professor Emérito. Foi membro por dois mandatos consecutivos do Conselho Estadual de Cultura. Salomão Fiquene também pertenceu à Sociedade Brasileira de Microbiologia, ao Colégio Brasileiro de Cirurgiões, à Societé Astronomique de França, à Academia Nacional de Medicina, entre diversas outras instituições da área médica, como por exemplo, membro do Conselho Profissional de “O Médico Moderno” e do Conselho Editorial de Atualização Médica.

Autor de vasta bibliografia especializada, em livros e periódicos, Salomão Fiquene publicou em 1931, “Doenças de Nícolas Fabre”; em 1938, “Vacinação Antitífica”; em 1941, “O Problema das Disenterias no Maranhão”; em 1948, “Novo Anti…

Foram muitas e muitas gerações da área de saúde que absorveram do mestre FIQUENE, exemplos de honra, humanismo e amizade, exemplos dignificados em todos os momentos de sua vida. Resta, sem dúvida, que a sociedade atual tem com o saudoso mestre uma dívida: Ficou muito de sua vida, mas também um pouco de sua morte. De sua vida o exemplo, a extrema dedicação, a inexcedível cultura médica que pacientemente transmitiu na cadeira de Doenças Parasitárias. De sua morte, um longínquo ressentimento de saber que sua energia vital foi também gasta com toda uma geração de profissionais da saúde, em sua diuturna atividade docente.

Na época difícil da Faculdade de Medicina, Farmácia e Odontologia, quando funcionava num Grupo Escolar na Praça Gonçalves Dias, em São Luis do Maranhão, e o salário dos professores pagos pela Universidade Católica não equivalia nem ao salário de um docente de curso secundário, assim mesmo o Professor FIQUENE tinha a pontualidade britânica e transmitia conhecimentos com incomparável maestria, acompanhado com um único assistente, Lourival Castro Gomes, um a um os numerosos alunos, acariciando-os com palavras como “Meu Filho”, “Jovem” ou chamando pelo nome próprio de cada um, que ele tão sabiamente conseguia gravar, conduzindo a todos para o “Universo do Conhecimento”, entregando a cada um com sabedoria as armas verdadeiras para futuras conquistas.

Com a federalização da Universidade, novos prédios, melhores salários, estrutura e o Professor FIQUENE não alterou sua rotina de trabalho, o mesmo desvelo, a mesma eficiência, a mesma cortesia e paciência com seus alunos. Desvantagens e vantagens pecuniárias nunca o atingiram enquanto mestre, homem de ciência e sacerdote da medicina.

Em 24 de junho de 1984, vitimado por parada cardíaca, nos deixou para sempre. Estava com 77 anos, ao longo dos quais deu provas inequívocas de abnegação, honradez e dignidade, concluído mais essa viagem da qual retorna hoje em lembranças, passando a eternizar-se aqui na Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes – AICLA, na condição de Patrono da Cadeira 29, e na memória de todos os seus orgulhosos conterrâneos pelo conjunto de suas obras e pelo legado de amor e dedicação à família e a causa da humanidade.