Raimundo Nonato Lopes Junior

Cadeira 21

Raimundo Nonato Lopes Junior

Nascido em 09 de agosto de 1974, na ilha de São Luís, Maranhão. Portanto já quarentão ludovicense. Itapecuruense de coração, além de poeta, músico, compositor, exerce a profissão de Engenheiro Civil. Pai de 03 maravilhosos filhos biológicos e outros tantos de criação. É divorciado e escreve desde a infância.

Autor do livro poético: OUTRAS VOZES

E de contos: MEMÓRIAS DO CAPA PRETA,

Além de participar de várias coletâneas, organizou um livro, em especial: COMIGO É TUDO AZUL, onde também teve uma participação. O livro trata sobre o tema AUTISMO.

Está na eminência do lançamento de mais um livro chamado: DEPRESSÃO, UM NOCAUTE DA VIDA.

Membro fundador da AICLA: academia itapecuruense de ciências letras e artes e da AMEI: associação maranhense de escritores independentes, ainda possui mais duas obras prontas, a saber:

OS HERDEIROS DE ANTÔNIO LOPES DA CUNHA, que retrata seus ascendentes paternos.

E O LEGADO DE MARIA BRÍGIDA, que enaltece seus ascendentes maternos.

Tem como fase marcante de sua vida, a sua própria infância em nossa cidade, do qual ele relata, como a seguir:

“ Capítulo I – A infância

Da minha infância lembro-me o suficiente pra dizer que eu não era boa peça, embora fosse dengoso e tranquilo.


Lembro-me uma vez, quando um certo primo me deu uma bisca, com brincadeira, no mesmo instante abri o berreiro. Meu avô ouviu e veio correndo perguntando – O que houve? – Só de mal chorei mais alto ainda, para ver o sofrimento de meu primo nas mãos do meu avô.

Minha turma sempre eram: Zé Duardo (Dudu), Lilica e Piragno (Magno). Nós nos apelidávamos de “A Dupla Dinâmica”. Irônico, não? Éramos uma dupla de quatro pessoas.

Era com essa galera que vinham as aventuras incríveis nesta grande cidade do interior, que na época quem tinha jumento era rico e quem andava de burro era empresário.

Quase todos os dias, banhávamos escondidos no rio itapecuru, sem nossos pais saberem, claro! Pena que quando éramos pegos, a surra era certa.

Aproveitando o enfoque sobre a surra, meu avô por ser meio interiorano me surrava de maneiras variadas e ás vezes até mesmo de forma meio extravagante. Tipo assim: de corda, de cipó, de cabo de vassoura, de “mãozada” e de cinto. Nem me fale! Eu já estava quase entrando no Guinness Book. A criança que mais apanhou em todo o mundo.

Certa feita, eu levei umas lapadas de corda de nylon, estando eu de cabeça para baixo. Os pés juntos, seguros pela mão esquerda de meu avô. A direita você já sabe. Foi emocionante! Até hoje não tenho palavras para descrever o ato.

Em contrapartida, os prejuízos que eu dava aos meus avós eram bastante vultosos. Posso descrever a primeira situação delicada que

Existia uma casa coberta de palha atrás da casa de comércio e morada de todos. E todas as manhãs meu avô acordava todos com um cascudo no mocotó da perna e mandava todos fazerem algum serviço. Tipo, limpar o quintal, encher os potes, lavar as louças, fazer o café, lavar os banheiros, descarregar as mercadorias do comércio etc.. O certo é que todos os meus tios, primos e irmãos de criação que moravam na casa, totalizando mais de 20 pessoas, passavam por este ritual.

Sim, mas voltando a casa de palha. Certo dia fui convocado, carinhosamente, com um cascudo no mocotó, por meu avô-pai, Piau-Vovó, para limpar o quintal, que era, na época, do tamanho de um campo de futebol, cheio de árvores frutíferas e de folhas ao chão. E eu, no meu entendimento, ajuntei o lixo do quintal dentro da casinha de sapê e pra evitar dar trabalho para os outros inquilinos, ateei fogo naquele monte de lixo, além de pensar que não iria fazer fumaça para o restante do quintal e não incomodaria, assim, meus pares.

O fogo foi tão forte e alto que pegou no teto da casa e logo se espalhou. Não sei como isso aconteceu, porém lembrei que havia uma caixa d’água no padrão antigo de tijolo maciço, no alto de um antigo banheiro. Uma espécie de tanque aéreo. Subi no mesmo com uma latinha de leite ninho vazia na mão para encher de água e jogar naquele fogaréu. Após algumas tentativas vi que não surgia efeito. Então foi o jeito pegar um pedaço de pau que estava por lá e, através da plataforma da “caixa” d´água pulei para a cobertura de palha que estava em chamas e com o meu cajado improvisado batia no fogo tentando apagar, mas era uma luta em vão.

Imaginem vocês que nessa altura do campeonato os vizinhos e curiosos da rua, todos estavam de olhos fitados naquela cena. Pensei em todas as surras que levei e só me restou tentar fugir para o esconderijo do rio. E foi o que tentei fazer, pois o fogo já consumia tudo. É “vero” tentei mas uma de minhas queridas tias, juntamente com minha bisavó agarraram-me e levaram-me até meu avô chegar do Tingidor (Povoado que fica a 40 Km da Sede).

Resumindo: apanhei do meu avô-pai, até ele cansar de me bater, e fiquei de joelhos no milho o dia inteiro de braços abertos frente a uma parede de um velho banheiro no lindo jardim de flores da minha mãe-vó, Dona Mundoquinha. Sem falar que havia dezenas de velhinhas aposentadas do interior que sempre compravam em nossa quitanda e diziam entre si: tem que amarrar um mês no pé da cama! Ou ainda: coloca numa prisão algemado com corrente!


Calma gente! Isso é só o começo.

Capítulo II – A escola

Comecei a estudar na 1a. Série do 1º Grau com 3 anos, mas tive que repetir, pois meu tio-irmão ficou reprovado e tive que acompanha-lo, pois era a tradição da Família Cruz Silva. Naquela época, em nossa cidade, não existia pré-escolar ou outra dinâmica pedagógica semelhante.

O primeiro dia de aula, na verdade, não sabia o que era isso. Minha mãe-vó me arrumou, pentiou meu cabelo para o lado e me entregou o material escolar. Estava todo engomadinho e todo comportado.

Aprendia tudo com facilidade e sempre fazia os exercícios. Passava-se esse início de meus estudos no Lar de Daniel. Era um Centro Espírita que cedia o espaço para a Ação Social. Uma mini escolinha sem fins lucrativos.

Mas o fato mais marcante aconteceu em casa quando estava respondendo um exercício e o lápis quebrou a ponta em meio a uma conta de matemática em plena preocupação com meus deveres.

Fui ao comércio na sala ao lado da casa e peguei uma lâmina de barbear (a dita Gilete) e fiz a ponta do lápis sentado novamente naquele que tinha acabado de sair do conserto. Ainda não satisfeito com o resultado da lâmina, decidi ver se ela estava mesmo amolada, realizando, assim, um pequeno teste. Voltei-me para o encosto do sofá e passei-a no mesmo, várias vezes até vir a certeza que realmente a gilete era boa. Infelizmente, meu avô-pai me pegou no flagra e acho que nem preciso dizer o que aconteceu em seguida, foi trágico!

Outra vez, na escola, estava brincando de pegador com meu irmão de criação – Dudu – no colégio, pois durante todo o 1º Grau estudamos juntos. Até hoje não entendo direito o que exatamente ocorreu naquela brincadeira, contudo creio que estávamos atrapalhando discretamente a aula. Até porque meu avô-pai chegou de repente e nos arrastou para nossa casa que ficava uns 30,00 m da escolinha e nos deu aquela famosa surra de barriga. Aquela que ficamos amarrados barriga com barriga, com nosso algoz, e a medida que o cinto entra em ação vamos rodando e curtindo a dança da união forçada. Meu irmão-tio chorava muito e eu mesmo estava inconsciente do fato que justificasse o castigo e não derramei nenhuma lágrima.

Minha primeira professora chamava-me de Raimundo Nonato. Como meu pai biológico não me criara, pedi para ela não me chamar assim, pois era o mesmo nome de papai, que me deixava melancólico. Preferiria que me chama-se Júnior. No entanto, Ela não me deu ouvidos, até que um dia, simplesmente, eu tive que dar uns conselhos nela com uma régua de madeira, recheada com murros e palavrões, levando-a ao choro por toda aquela louca tarde. Meus algozes, como sempre, foram correndo chamar meu inquisidor, mas, graças a Deus! Não o encontraram. Ele estava pro bendito Tingidor.

Nos meus cinco anos estava na 2a. série, onde fiquei gostando pela 1a. vez de uma linda criança. Mandava recadinhos e ela sempre sorria. Dizia que quando crescêssemos casaria com ela e íamos ter um time de futebol de filhos. E ela apenas sorria. No recreio todos os meninos se juntavam na bola e as meninas com as brincadeiras de roda. Exceto minha amada que jogava bola com a gente e gostava de treino de luta livre. Hoje em dia ouvi dizer que ela casou pela segunda vez. Foi a segunda esposa que ela teve. Ainda bem que foi apenas coisas de crianças. Não sei por que em toda minha vida um chama pra lésbica. Desde a primeira amada até hoje, elas só confiam em mim.

Estudei a 3a. e 4a. séries em uma escola pública estadual chamada: Grupo Escolar Gomes de Sousa. Fica em frente a praça principal da cidade, onde também fica a Prefeitura, o Clube Social, a Igreja Evangélica etc.. Minha vida nesta época era só estudar, assistir televisão, brincar e banhar escondido no rio, gazeando aula.


Tive outras paixões também, mas todas faliram. Neste mesmo colégio fui muito perseguido por outro aluno, que batia em todos. O que hoje chamam de Bulling. Ele roubava o dinheiro das crianças e quem dissesse alguma coisa apanhava da mão dele. Foi quando, na mesma época, levei um fora de uma menina da 4a. série e estava transtornado, pela primeira na fossa. Quando o impiedoso garanhão Batedor veio para o meu lado no recreio me obrigar a pagar o lanche dele. Ele bem maior que eu. Ao mesmo tempo vi minha primeira ex-paixão passar e o sangue ferveu em minhas veias. E uma coisa mudou em mim loucamente e comecei a sessão de espancamento e todos olhando aquele round correram para cima do Bulinador e me ajudaram a ensinar àquele garoto como é que se vive em sociedade. A última notícia que tive desse rapaz é que ela estava trabalhando como carroceiro. Uma importante profissão em nossa atual moderna cidade de Itapecuru-Mirim/MA.

Ainda no Grupo tive um dia de injustiça. Todos os anos após cantarmos o hino de Itapecuru-Mirim, da Bandeira, do Estado e do Brasil no “sol quente”. Éramos escolhidos para limparmos as fossas e sumidouros do colégio. E como era um aluno excepcional, sempre era lembrado pelos meus amigos professores.

Após um longo período de limpeza profunda, nossas fardas sujas e corpos molhados, íamos com o vigia banhar no rio. Era nossa especialidade. E numa dessas meu avô achou que estivesse gazeando aula. Foi mais um capítudo: como levar castigo de formas variadas! Juntei as mãos e implorei que não me batesse, semelhante ao Gato de Botas, com aquele olhar de coitadinha. Treinei muitos meses aquela performance. Porém foi em vão. Apanhei mesmo. Não sei como, atualmente, não sou traumatizado. Tenho certeza que no meu íntimo o perdoei por tudo, pois era a forma como ele aprendeu com seus pais.

Na 5a. série fui para o CEMA, escola pública de renome na época e, consequentemente, me apaixonei novamente por duas gêmeas. Era engraçado isso, às vezes beijava uma pensando ser a outra. Foi uma experiência inesquecível. No final não fiquei com nenhuma delas. No entanto aquilo me influenciou psicologicamente que acabei por muitas vezes me envolver com duas mulheres, parentes entre si, ao mesmo tempo. Estou trabalhando nisso, para poder superar era fase.

Lembro-me que sempre faltava cadeiras naquela escola. Sempre a professora estava doente e tinha que faltar, entretanto, no contexto geral era um bom colégio.
Nos meus 12 anos estava na sexta série, na melhor escola particular da época em nossa cidade, onde aprendi muitas coisas, tais como: passar a cola da prova pra todos os alunos, chamávamos de A PESCA, foi o meu maior crime e o pior de toda minha vida, daí vieram os outros. Nesta escola, existiam brigas constantes, expulsões e até mesmo ameaças de morte. Ainda bem que só fiquei 1 (um) ano neste protótipo de FEBEM.

Nos meus 13 e 14 anos estudei a 7a. e 8a. séries, como sempre, em outra escola, tradicional por nome e cultura pedagógica marcante na história e transformação de nossa cidade: Escola Leonel Amorim. Tenho orgulho dela, apesar de na época termos apenas 13 alunos em nossa sala. Chegamos até a fazer um pacto de Amizade Eterna. Coisas de Adolescentes: Eu, Zé Duardo, Marcos, Josélia, Vanilson, Júnior Machado, Liana, Diana, Célia, Manoel, Sara, Gutemberg e Josiane. Dizíamos: “Quando crescermos não deixaríamos nunca de sermos amigos”. Não passou 3 anos e eu não tive mais contato com nenhum deles.

E mais uma vez, fiquei afim de duas garotas e, como sempre, não fiquei com nenhuma. Uma terceira garota ficou afim de mim, mas o irmão dela não entendia a situação e sempre puxava a mesma pelos cabelos e lavava para os pais darem uma bronca.

Após o 1º Grau, fui fazer o 2º e 3º Graus na Capital, onde tive outras experiências. Mas vamos por partes. Um capítulo de cada vez.”

UM QUEBRA GELO MARAVILHOSO, em meio a uma Biografia oficial.

Atualmente, JUNIOR LOPEZ, o artista atua na música e nos monólogos poéticos em diversas apresentações e participações de eventos em todo o Brasil.

O mesmo destaca-se moldando a arquitetura itapecuruense, trazendo designers modernos que estão modificando a cara de nossa querida cidade.

Júnior Lopes