Discurso de Posse de Itaan de Jesus Pastor Santos como membro da AICLA e elogio ao seu patrono, Luís Gonzaga Bandeira de Melo
Exmo. Sr. Francisco Inaldo Lima Lisboa, M.D. Presidente da Academia Itapecurense de Ciências, Letras e Artes, autoridades aqui presentes, meus familiares, amigos e demais convidados presentes a essa solenidade. De início quero dividir esse meu discurso com os nobres colegas que, como eu, tomam posse, nesse momento, como os mais novos acadêmicos dessa academia. Nessa saudação inicial agradeço imensamente as palavras a mim dirigidas pela acadêmica Maria Assenção Lopes Pessoa, minha prima e amiga, com quem convivi e aprendi a respeitar desde a nossa primeira infância.
Neste momento em que sou investido na condição de acadêmico o meu júbilo é grandioso tanto pela própria condição de estar no meu município de origem, quanto por poder representar, de forma direta, o ilustre Luís Gonzaga Bandeira de Melo, patrono da cadeira número 14, a qual passo a conduzir a partir de agora.
Chego aqui pela minha condição de itapecuruense, nascido na comunidade quilombola de Oiteiro dos Nogueiras, e morador durante tão poucos anos na casa 262, da rua Santo Antonio, antes de seguir para São Luís, onde D. Loimar, minha mãe, decidiu assumir o sonho do seu marido, Edson, de dar um título de “doutor” a cada um dos seus quatro filhos. Mantive-me, pois, equidistante da terra onde nasci durante boa parte da minha vida, participando, apenas parcialmente, da vida dos amigos e dos parentes tanto nas vindas periódicas à nossa cidade quando da infância e da adolescência, ou em momentos pontuais, já na condição de professor da Universidade Estadual do Maranhão, nas viagens de pesquisas e nas atividades de extensão.
Durante todo esse tempo em que a AICLA passou a existir não me vi acadêmico, pois a minha verve literária foi sendo substituída, paulatinamente, pelo viés científico e, mesmo entendendo que a academia itapecuruense era também de ciências não me sentia pronto para abarcar as outras áreas do conhecimento incluídas no seu âmbito terminológico, ainda que a ciência possa perfeitamente estar contida dentro de uma acepção mais ampla conduzida pela filosofia que abarca tanto as letras quanto as artes.
Candidatei-me à cadeira catorze, cujo patrono é Luiz Gonzaga Bandeira de Melo. As minhas irmãs, todas nascidas antes de mim, tiveram mais tempo convivendo na nossa cidade e, conhecendo Luiz Bandeira, inclusive pela sua convivência com meu pai, ficaram muito felizes e emocionadas pela representação que eu passaria a exercer sendo eleito. Mesmo assim, não me sentia tranquilo quanto ao resultado, mesmo sabendo, ao final do período de inscrição, que não havia outro candidato inscrito a essa cadeira. Na condição de cientista cuja obra perpassa, fundamentalmente, pela questão agrária e agrícola do Estado, como fica claro na dissertação do mestrado e na tese do doutorado, não tinha certeza como seria avaliado pelos nobres acadêmicos, mesmo considerando que academias de ciências, letras e artes são, naturalmente, multifacetárias.
A minha eleição foi absolutamente generosa. Em um período onde os gritos dos divergentes nas redes sociais são tão estridentes que minimizam a ciência, as letras e as artes, e a qualidade do que é produzido se esvai liquefeita no excesso de informações, ter a condição de estar entre pessoas tão qualificadas, que representam áreas diversas e remetem às possibilidades congregatórias de dialogar sobre os temas mais representativos ao município de Itapecuru Mirim e ao Maranhão é absolutamente maravilhoso. Me imaginei, a partir de então, capaz de escrever algo bem melhor do que aquele poema ecológico nominado de “As folhas”, em que eu dizia:
As folhas que caem sobre o chão
se vão…
se perdem… ou não?
mergulham fundo… e criam
se transformam… e criam
vida nova.
Cobertura morta, incorporação, adubo.
O tempo aguarda
e novas folhas vem…
plantas que chegam e ficam
sob olhares espantados que produzem,
alimentos que saciam,
fome que esquece.
É a vida.
Esse poema, feito ao acaso, não sei bem quando, talvez apenas demonstre que o caminho a ser percorrido por mim na entrada da academia encontre ecos nos próprios caminhos que trilhei antes da minha entrada na universidade quando rumava pelas esquálidas ruas do bairro da Liberdade, em São Luís, e de lá pelos espaços artísticos e culturais de São Luís. Aos treze anos, quando ainda cursava a sétima série no CEMA, da Camboa, ingressei no movimento espírita onde participei da juventude espírita no Centro Espírita “Olhar de Maria” na área da Brasília, seguindo depois para a Mocidade Espírita Ismael, que funcionava na Federação Espírita do Maranhão. Por lá virei um militante alcançando a condição de coordenador de juventude do Centro Espírita Ismael e, depois, da própria Federação.
Sendo espírita, e defendendo as principais teses da doutrina kardequiana, como a reencarnação a evolução do espírito e a existência da vida em outros mundos, me descobri religiosamente conciliador, ao conviver com tranquilidade com todas as religiões cristãs ou não cristãs, orientais e de matriz africana. Nesse sentido aporto minhas convicções às de Luís Bandeira, que, como eu, esteve por muito tempo “conversando” com Allan Kardec através das leituras das obras basilares da doutrina espírita. Eu era muito criança quando meu pai deixou o plano físico e partiu para o mundo espiritual em 1965, mas Salviana, minha irmã primeira, lembra do meu pai e da minha mãe participarem de reuniões mediúnicas juntamente com Luís Bandeira na primeira metade da década de 1960. À época as reuniões aconteciam nas casas dos médiuns ou dos simpatizantes, sendo que a dinâmica dessas atividades, além da prática mediúnica, incluía leituras de obras espíritas e orações em prol de pessoas necessitadas.
Gostaria de ter conhecido Luís Bandeira para que pudéssemos conversar sobre a importância da fantástica obra de Allan Kardec, mas também trocar confidências sobre a mediunidade de Francisco Candido Xavier, e muitas das obras de referência da doutrina espírita escritas por Emmanuel e André Luiz e psicografadas pelo próprio Chico Xavier. Lamento muito não ter tido a oportunidade de estar em 1976 em Itapecuru quando Luis Bandeira, juntamente com outros moradores conhecidos da cidade como Sixto Amorim, Graciete Cassas e João Silveira, fundou o Centro Espírita Amor e Caridade. Na oportunidade, lançou seu único livro em vida. Rosalia, romance com claro conteúdo espírita, foi escrito em homenagem à sua tia de mesmo nome que era professora e poetisa. A condição de espírita proporcionou a Luis Bandeira a possibilidade de pensar o mundo com esse olhar e, com certeza, grande parte do que escreveu e que ainda não foi publicado, transita pelo campo da doutrina kardecista como se pode perceber na primeira estrofe do poema “Onde estarei”:
Quando eu partir deste velho mundo
Depois de ter vivido estes tantos anos
Depois de ter sofrido tantos desenganos
E despertar do sonho tal vagabundo
A percorrer o infinito, quase sem destino
Onde estarei? Onde estarei, vinde dizei
Se junto a todos vós que tanto amei
Se em algum abismo de éter cristalino
Nesse sentido, seus familiares organizaram o romance “Doutrina, Corolário da Fé” caracteristicamente espírita. E estão preparando, também, “Deus, o Homem e o Diabo”, além de um livro de poesias e outro de contos.
Mesmo sendo um pensador, com uma lógica espírita que lhe permitia estabelecer uma relação com o mundo intelectualmente filosófico, tinha também um pragmatismo científico que lhe levou, de forma autodidática ao estudo do direito, transformando-se em advogado provisionado, condição que demonstrava sua grande capacidade de discursar com conteúdo e defender teses com brilhantismo. Essa provisão dada pela Ordem dos Advogados do Brasil, seção do Maranhão, aconteceu em 4 de julho de 1970 e lhe permitiu desenvolver um trabalho de ótima qualidade em Itapecuru Mirim.
Mesmo não sendo da área do direito gostaria de poder ter conversado com Luís Bandeira para compreender como esse pragmatismo científico colou com a filosofia espírita e se esse pragmatismo era o que lhe movia em direção ao ecumenismo religioso a ponto de se envolver nas atividades da igreja católica tanto em Itapecuru Mirim quanto em Cantanhede onde criou a festa da Cruz. Nessa perspectiva conto com apoio dos familiares, inclusive aqueles que fazem parte da AICLA, para não só entender o pensamento do patrono da cadeira que tomo posse a partir de hoje, como manter a viva a sua memória lhe fazer jus ao importante papel que teve ao longo da sua vida.
Meus caminhos artísticos e literários foram muito mais como expectador e estudioso do que como artista ou literato. Apaixonado por música e leitor voraz me descobri um cientista quando entrei na faculdade, mesmo que a literatura e as artes tenham sido sempre companheiras. Devo acrescentar o esporte como outra referência para a minha vida. Acompanho de perto não só o futebol, mas a grande maioria dos esportes. O trabalho de pesquisa e extensão feitos na universidade me mantiveram dentro das comunidades e percebo, com muita clareza, como a cultura e o esporte podem ser transformadores e tem todas as possibilidades de descobrir talentos nos lugares mais recônditos, faltando para tanto o apoio e boa vontade política. Esse viés, com certeza, Luís Bandeira seria capaz de por em prática, pois a sua vida era de extrema dedicação a educação e às artes. Foi professor em uma época em que essa profissão tinha uma respeitabilidade que ia muito além da sala de aula. Também foi diretor da escola Mariana Luz. E foi secretário de educação do nosso município em dois períodos apresentando não apenas o cumprimento do dever de um cargo, mas criando, propondo e transformando de modo a ser elogiado dentro do governo, pela câmara de vereadores e pela sociedade itapecuruense em geral. Produtivo e inspirado Luís Bandeira escreveu a letra do hino oficial de Itapecuru Mirim e, em outro momento, mostrando uma qualidade ímpar, criou a bandeira do município, ambas na década de 1970. E foi além, criando o uniforme estudantil do município. Para além de todos esses atributos ainda se envolveu com futebol amador assumindo a organização do Aimoré, time que disputava o campeonato amador do município.
Seria até um paradoxo, se depois de apresentar Luís Bandeira como um homem irrequieto, uma pessoa de “sete instrumentos”, que circulou em tantas áreas do conhecimento, eu não dissesse que ele esteve na política partidária. Sim! Eleito para vice-prefeito, assumiu a condição de prefeito por conta de um impedimento do titular João Rodrigues. Mas, da mesma forma que a inquietude lhe levaria ao posto maior do executivo itapecuruense, a seriedade e a sua estratégica visão de mundo lhe dificultava aceitar ser conduzido pelo modelo de política que sempre definiu governos, câmaras, assembleias, senado e até o judiciário brasileiro. Assim, abdicou rapidamente do emaranhado em que o executivo se distribui e desistiu de continuar na política. O filósofo Mário Sérgio Cortella considera que “temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que queremos”.
Me sinto agora, na mesma paz de espírito que Luiz Bandeira sentiu quando abdicou do cargo de prefeito, sendo que na minha estatura atual, essa paz de espírito vem somada a uma alegria jovial de poder participar da instituição de maior referência cultural do município de Itapecuru Mirim. Dessa forma quero agradecer a todos os confrades pelos votos que me elevaram a imortalidade acadêmica com a qual pretendo contribuir para cada um dos seus aspectos científico, das letras e das artes.
Agradeço imensamente a presença dos familiares de Luis Gonzaga Bandeira de Melo, em especial aos confrades João Boaventura Bandeira de Melo e Romeu Bandeira de Melo pelo apoio na construção desse texto. E agradeço, com carinho às minhas irmãs Salviana, Amparo, Marluze e Luzinea, itapecuruenses a quem vou buscar representar dentro da academia. Com elas, sempre ao meu lado, meu cunhado Nelson. À minha esposa Viramy, e minha filha Vívian que se fazem presentes em cada momento da minha vida. Ao meu filho Yuram que ficou em São Luís por conta dos trabalhos da faculdade, e ao me filho Kirlyan, que bem distante, no Rio Grande do Sul, cuida dos novos membros da família, minha nora Rosangela e meu neto Ravi. Em especial à minha mãe, Loimar Pastor Santos, que aos 95 anos, com toda a dificuldade de mobilidade que a impediu de estar comigo nesse momento, faço todos os agradecimentos a quem me proporcionou alcançar cada um dos degraus da minha vida. Concluo com uma frase de Albert Camus, escritor, jornalista, romancista, dramaturgo e filósofo argelino: “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”.