Cônego José Albino Campos Filho

Cadeira 17

Cônego José Albino Campos Filho

Venho enaltecer esse destacado sacerdote católico que cultivou em sua jornada nesta dimensão terrena o humanismo em todo o seu sentido e extensão, pois, reconheceu o valor do homem em sua totalidade. Com sabedoria, soube conciliar os ensinamentos do reino de Deus com a promoção de ações com vistas a uma vida boa neste reino de crianças, de mulheres e de homens. Percebeu a importância de harmonizar a fé e a razão em busca da verdade plena sobre si mesmo e os seus irmãos em Cristo. Praticou com perseverança o modo de vida que consiste em estar neste mundo com os outros. A sua perspicaz visão de comunidade e de futuro possibilitou que exercesse liderança efetiva nos destinos do município de Itapecuru-Mirim por duas décadas (1950-1960). Para tanto, operou, com talento nato, os mecanismos institucionais daquela época a fim de impulsionar a atuação da sua Igreja e dotar a cidade de melhores condições para o desenvolvimento econômico e social. Nesse sentido, seus feitos podem ser identificados em muitas frentes, tais como na pastoral religiosa, na educação, na assistência social, na infraestrutura, na economia local e na organização dos trabalhadores.

O trabalho como pároco da Igreja de Nossa Senhora das Dores era intenso e contemplou múltiplas realizações. Dentre tantas, as seguintes merecem ser lembradas. A incorporação das quatro festas religiosas anuais (São Benedito, Santa Cruz, Nossa Senhora das Dores e Divino Espírito Santo) ao calendário litúrgico da paroquia, agora sob liderança dele, e com o apoio de famílias ilustres da cidade. A concretização de duas grandes “Santas Missões” (1955 e 1962). A instalação da casa das freiras originárias da congregação “irmãs Josefinas”. A adaptação dos rituais de celebração das missas e demais sacramentos às novas orientações eclesiásticas do Concílio Vaticano II. A elaboração do novo hino de Nossa Senhora das Dores. A formação de grupos de oração e catequese, tais como, o apostolado da oração, a confraria de São Vicente de Paulo, a irmandade de Nossa Senhora das Dores, as zeladoras do Coração de Jesus, as zeladoras de São José e as associadas filhas de Maria. E, por fim, as “desobrigas”, que se constituíam em visitas pastorais periódicas às comunidades rurais da área de abrangência do município de Itapecuru-Mirim, de onde brotaram histórias de sacrifícios e bravuras no interesse da evangelização cristã do povo mais humilde.

No âmbito da educação, grande fascínio do vigário, três iniciativas valem ser pontuadas. O movimento de alfabetização que ocorria na própria sede da Casa Paroquial formando dezenas de crianças e adultos. A estruturação da Escola Paroquial São Vicente de Paula destinada basicamente aos alunos do hoje ensino fundamental (formal). A viabilização da vinda do projeto “Ginásio Bandeirantes” para Itapecuru-Mirim, que contou com forte articulação sua junto ao Governo do Estado no final da década de 1960.

A parceria da Paroquia de Itapecuru com a Cáritas Brasileira (organismo da CNBB), capitaneada pelo pároco, ensejou a inclusão do município no programa norte-americano “Aliança para o Progresso”, cuja missão era a doação de alimentos à população carente de toda a América Latina. Certamente, este pode ter sido o primeiro grande projeto de assistência social capaz de beneficiar centenas de crianças necessitadas dessa localidade.

A preocupação do Cônego Albino Campos foi muito além das questões espirituais e sociais e alcançou a economia local. E nesse campo, agia com visão política e almejava o progresso material de toda a comunidade. Teve papel decisivo para tornar realidade algumas demandas da população à época: a instalação da agência do Banco do Brasil com a primeira gerência a cargo de funcionários filhos da terra; a fundação da cooperativa industrial e agrícola de Itapecuru a fim de fazer funcionar uma usina de álcool extraído da mandioca; a construção da estrada vicinal ligando a sede do município ao povoado Tingidor de sorte a facilitar o escoamento da produção agrícola e pecuária da zona rural; a obtenção de um novo gerador, perante as autoridades do Estado, visando aumentar a oferta de energia elétrica para a cidade; a doação de terreno pertencente à Igreja para a implantação da agencia dos correios e, por fim; a formação de lideranças rurais para o bom desempenho das suas tarefas e a dinamização do setor primário da economia.

Quando se diz que o religioso agiu com visão política, convém explicar essa afirmação mediante a interpretação do conjunto das suas ações à luz do pensamento filosófico de Hannah Arendt ((1906-1975) quando estabelece a natureza e a finalidade da atividade política, que não está circunscrita apenas à esfera estatal. O significado da política, na perspectiva de Arendt, sugere a preocupação fundamental com a existência, a sobrevivência e o bem-estar do ser humano em sociedade. Eis o que a autora afirma a respeito.

A política é absolutamente necessária à vida humana, não apenas da sociedade, como do indivíduo também […] Como o homem não é autossuficiente, mas é dependente de outros para sua existência, são necessários provimentos que afetam a vida de todos e sem os quais a vida comum seria impossível […] Deve-se entender a política como exclusivamente ocupada do que é absolutamente necessário para que os homens vivam em comunidade […] A preocupação da política contemporânea é com a existência nua e crua de todos nós […] Considera-se que a tarefa, a finalidade última, da política é salvaguardar a vida em seu sentido mais amplo; assegurar para a maioria a vida, o sustento e um mínimo de felicidade […] A política é uma necessidade, que deve, portanto, justificar-se em termos dos seus fins […] A questão do sentido atual da política, porém, diz respeito à adequação ou inadequação dos meios públicos de força utilizados para tais fins […] O objetivo do governo, em cujo campo de atividade se aloca a política daqui em diante, é proteger a livre produtividade da sociedade e a segurança do indivíduo em sua vida privada. (ARENDT, 2006)[1].

Esse perfil, de líder religioso e comunitário, reflete, a meu sentir, a índole de benfeitor do Cônego José Albino Campos Filho, nascido em São Vicente de Ferrer, baixada ocidental maranhense, em 04 de fevereiro de 1922, filho de José Albino Campos e Maria Sodré Campos. Realiza o ensino fundamental em sua terra natal e segue para São Luís (MA) onde conclui Humanidades (1941), Filosofia (1943) e Teologia (1944), todos no Seminário Santo Antônio. Ordena-se sacerdote em 8 de dezembro de 1947, na Catedral Metropolitana de São Luís, tendo celebrado sua primeira missa na Igreja de Santo Antônio, em dezembro de 1947, e, como era de praxe, celebra, também, a primeira missa em sua cidade berço, no dia 1º de janeiro de 1948, na Igreja-matriz de São Vicente de Ferrer, sob os olhares de amigos e familiares. Após algumas experiências pastorais em outras localidades e instituições, é designado pároco da Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Itapecuru-Mirim, e assim permanece de 12 de dezembro de 1950 até seu falecimento, em 24 de janeiro de 1970, aos 47 anos, que ocorre em São Luís, por motivo de doença. O corpo do Cônego José Albino Campos Filho jaz na mesma Igreja-matriz onde, em vida, exerceu obstinado a sua função de presbítero por quase vinte anos.

Decorridos mais de cinquenta anos do falecimento, a imagem de líder religioso e comunitário desse sacerdote católico continua viva na memória da cidade e muitas das sementes plantadas (e conquistas obtidas) por ele ainda geram frutos e perduram por aí expressando a sua importância e inegável contribuição para o progresso de Itapecuru-Mirim.

Pela abrangência de seu trabalho, a figura admirável do Cônego José Albino Campos Filho merece ser reforçada neste evento, assim como elogiada a escolha dele como patrono da Cadeira nº 17 da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Arte (AICLA), que tenho a honra de ocupar a partir de agora.

Obrigado a todas as confreiras e a todos os confrades pela oportunidade deste momento e, especialmente, pela minha eleição para ocupar a Cadeira nº 17 da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA).

[1] ARENDT, Hannah. O que é política? Editoria de Ursula Ludz. Prefácio de Kurt Sontheimer. Tradução de Reinaldo Guarany. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.