Maria José Lopes Martins

Cadeira 23

Maria José

BIOGRAFIA: MARIA JOSÉ LOPES – MARIA JOSÉ PRETA – MARIA JOSÉ DE DEUS

PATRONA

CADEIRA 23

Maria José Lopes, aparece na lista da segunda vitória como o de número 96º.

Tive a felicidade de encontrar o manuscrito de sua autobiografia, guardada com carinho pela sua filha de criação, Dona Nonata. No qual transcrevo a seguir:

“MINHA VIDA

MARIA JOSÉ LOPES MARTINS

Filha legítima de JOSÉ VERÍSSIMO MARTINS e PAULA MARIA LOPES.

Casaram-se em 06 de Janeiro de 1917.

Eu nasci em 08 de Novembro de 1917, no mesmo ano e no mesmo local que eles se casaram, em Campo de Pombinhas.

Fui batizada a 13 de Dezembro de 1918 na mesma Capela de Campo de Pombinhas, que na época pertencia a paróquia de Itapecuru-Mirim/MA.

Lá passei minha infância naqueles campos sadios, brincando e correndo, montado cavalos, vendo bois, carneiros, bodes e pescando nos igarapés.

Estudava com minha mãe que era doméstica, ela foi com uma família para São Luís (capital do Maranhão) e só retornou para sua mãe quando estava com 15 anos. Como era pobre, ela voltou novamente a trabalhar e era para sua irmã, por isso sabia um pouco de tudo e isto ela me passou.

Aprendi a ler muito bem com todas as pontuações e todas as orações.

Quando eu tinha 10 anos, vim para casa de meu “tio” FELICIANO, que era parente nosso.

Estive aqui em Itapecuru-Mirim, onde fiz o primeiro e segundo ano primário e depois voltei para Campo de Pombinhas. Durante esse tempo que passei aqui em itapecuru-Mirim, entre 1928 e 1930, fiz apresentações teatrais em pastorais e em comédias, pois era boa para decorar os textos, que eram necessários para as apresentações.

Como lia muito bem e cantava as Ladainhas e os Benditos, era chamada para rezar em velórios.

Minha mãe festejava São Sebastião todos os anos em Campo de Pombinhas, e eu tomei logo a frente para fazer estas atividades. E também fui ensinando as crianças da comunidade a ler. E, também, comecei a costurar. E tudo porque, já era eu quem ia com ou sem a minha mãe.

Na minha terra eu já participava de todos os movimentos, festas dançantes, casamentos e batizados. Minha mãe ajudava aquelas pessoas que não tinham nada. Então fomos criados neste clima de ajudar aos que precisavam.

Meu pai era lavrador, também vaqueiro e trabalhava no campo.

Nós éramos 3 (três) filhos, duas mulheres e 1 (um) homem. Todos nós trabalhamos na roça e fazíamos as obrigações de casa.

Era preciso que meus outros dois irmãos (Margarida e Simplício) também estudassem, foi o motivo que nos levou a mudarmos de vez para Itapecuru.

Com os outros dois a despesa era grande. Comigo era pesada, avalia com mais dois.

As minhas professoras deixaram que eu voltasse a estudar e, assim, terminei o Primário. Nessa época eu já tinha 14 para 15 anos. (1933)

O dia que chegamos aqui foi 13 de março de 1933. Continuei costurando, ensinando e estudando. Bordava na mão, marcava colchete, fazia varanda labirinto de paredes, e rendas. Com isso eu me vestia, me calçava.

Eu costurava para famílias de dentro da cidade e do interior. Fazia camisas para os que vendiam roupas prontas.

Costurava para a família de Chafir Buzar e para várias casas, inclusive para a esposa de Abidala Buzar, para Maria de João Elias, Raimundo Oliveira, Maria José Abreu Silva etc..

No interior, posso listar, povoados Saco, Jaibara, Ipiranga, Cajueiro, Morro do Burro, São João, Vaca Branca, Cantanhede e outros lugares que nem me lembro mais.

Ao mesmo tempo que eu trabalhava, ensinava e costurava para as moças. Era casa cheia!

Eu tinha minha escola particular, o nome era Escola São José.

Como somos católicas, desde que fiz minha primeira comunhão, eu participava da Santa Missa diariamente e me comungava todos os dias, até hoje. Fui catequista toda minha vida dentro da igreja e fora, nos quatro cantos de nossa cidade.

Fiz até curso catequético em São Luís do Maranhão, em Codó e até aqui mesmo passávamos semanas de estudos catequéticos.

Até hoje tenho contato de pessoas que passaram pelas minhas mãos, no Rio, São Paulo e Brasília, tanto na costura, como no ensino, como na catequese.

Pertenço aos apostolados Sagrado Coração de Jesus, de São José, Filha de Maria, Nossa Senhora das Dores e Legião de Maria, da qual fui uma das fundadoras. Eu, Maria José Lopes Martins, Maria Emídea e seu esposo Maninho.

A Legião de Maria já tem 50 anos, tendo como fundador, Cônego José Albino Campos. E, em todas estas irmandades, sempre procurei cumprir meus deveres. Sempre trabalhando e costurando para me manter e nunca deixei de ir aonde o Diretor Espiritual me mandava.

Fazia parte das romarias com os Vicentinos, e fui com eles para Anajatuba, Vargem Grande, Arari, Rosário, Chapadinha e Cantanhede.

Mesmo com todo o trabalho que eu tinha, ainda me sobrava tempo para passear em Caxias do Maranhão, São Luís, Cantanhede e nos Interiores daqui, em minha terra.

Em 1968, um vereador arranjou para eu ensinar pela Prefeitura Municipal. Neste tempo, a Prefeitura oferecia às pessoas a oportunidade de lecionar através dela. Mandavam procurar um estabelecimento e dessem o nome de Escola. Como eu já ensinava em minha casa, eu não precisei ir para outro local.

Na época eu tinha 25 alunos, então eu disse a eles que não precisavam mais pagar, pois ia ficar por conta do Município. O nome da Escola era Professor Luís Bandeira.

Porém eu decidi fazer assim, a tarde continuei com a Escola São José e pela manhã com a Professor Luís Bandeira.

Quando Nonato Cassas foi prefeito, juntou a Escola Luís Bandeira com a da professora Marlene Nogueira. Eu não sabia quantos alunos tinha a de Marlene, mas a minha tinha 120 alunos. Já trabalhavam comigo duas professoras. Estas duas Escolas é hoje a Unidade Escolar João da Silva Rodrigues.

E eu continuei com a minha Escola São José em minha casa, na rua Presidente Getúlio Vargas, número 425, onde moro até hoje, desde que chegamos aqui, desde que meus pais vieram pra cá e aqui vivo…

Trabalhei 14 anos pelo Município. Deixei quando me aposentei. Nestes 14 anos, nunca tirei Licença e nunca recebi o que era de direito.

Vamos falar da cidade como eu a conheci em 1928. Era pequena, tinha 8 ruas ao comprido e 8 ruas de travessa. Tinha as praças do Mercado, da Cadeia, praça do Cemitério, da Santa Cruz, e da Igreja. A luz era de Lampião, havia 6 homens que acendiam às 6 horas da tarde e apagavam às 11 horas da noite. Primeiro era a Querosene, depois passou para Carboreto e em seguida Petromaque e, finalmente, chegou a luz elétrica.

Os professores da época eram do estado e particular, a saber: professor Mata Roma, professor Newton Neves e professor João da Silva Rodrigues. Mariana Luz, professora Zulmira Fonseca, Dona Maria de Lourdes Coelho não eram do mesmo grupo.

Depois foram vindas outras professoras: Dona Antonieta, dona Olga, dona Dadá, dona Sinhá Tavares e assim por diante.

Eu estou aqui a 70 anos, vivendo na mesma rua, nunca mudei de rua. A mesma teve o nome de Beco da Perseverança, rua Caianinha e, por fim, rua Presidente Getúlio Vargas, 425, Itapecuru-Mirim/MA.

Na minha vida, fui madrinha de muitas crianças, madrinha de batismo de crisma e de consagração, testemunha de casamento, paraninfa de formando etc.. Estes afilhados e afilhadas são as minhas alegrias. Visitam-me da maneira que podem, mas sempre com muita alegria que recebo-os.”

Nesse mesmo caderno, há um diário que colocava não só o seu dia-a-dia, mas mensagens suas de fé e de grandes escritores brasileiros, além de escritos de gratidão de amigos e afilhados pela sua existência. Faço um capítulo à parte desses manuscritos.

Ao final da autobiografia, há uma pequena resenha feita por sua principal filha de criação, dona Nonata, também conhecida como Nonata do Lécio:

“Maria José Lopes, veio a falecer no dia 30 de abril de 2007, em sua residência às 6:00 horas da manhã.”

Em sua CERTIDÃO DE BATISMO, livro n. 17, folha 49, paróquia de Nossa Senhora das Dores, cidade de Itapecuru-Mirim, diocese de São Luís, estado do Maranhão, está escrito:

“Certifico que no dia 13 do mês de Dezembro do ano de 1918, na Matriz (Capela) de Pombinhas o Revmo. … batizou solenemente a MARIA JOSÉ, nascida a 08 do mês de Novembro de 1917, filha legítima de JOSÉ VERÍSSIMO LOPES MARTINS e PAULA MARIA LOPES MARTINS, foram padrinhos ÂNGELO GOMES e BENÍSSIMA GOMES, Itapecuru, 02 de Novembro de 1977.”

A mesma está assinada pelo vigário Padre BENEDITO CHAVES LIMA e autenticada com o carimbo da Paróquia de Itapecuru-Mirim.

ÊXODO 2: MARIA JOSÉ LOPES MARTINS

 

O Diário de Maria José Lopes, além de ter seus escritos e seu pensamento diário, há também um grande registro histórico de outras grandes personalidades de Itapecuru-Mirim e do Maranhão, presos no tempo e na memória de nosso povo, deixo um pouco do mesmo para degustação de nossos leitores:

“O DIÁRIO DE MARIA JOSÉ LOPES

 

A DOR
À querida irmã Maria José L Martins, Uma Lágrima Sentida,

da sua irmã e amiga –

A lágrima é a linguagem mais eloquente dos olhos.

Uma lágrima – gota puríssima retratando a dor

Que nos vai n’alma! A lágrima é a expressão mais fiel do Sofrimento!

A dor! – A dor é o poema sagrado que nobilita a alma,

Quando recebemo-la com paciência e fé!

A lágrima é o eco da saudade, é a companheira do amor!

Devemos enaltecer a Dor, pois esta nos abre a porta do paraíso,

Onde Jesus misericordioso nos dará a eterna Felicidade –

MGB_Em 12 de Agosto de 1945

PENSAMENTO
Ao … de MJLM

São 6 horas da tarde. Horas de meditação e identidade!

O Sol envia os seus últimos raios à terra,

que se entristece na ausência do Sol.

Eu sinto dentro de mim, nesta hora suprema,

a nostalgia da Saudade!

Da saudade a uns lindos olhos

que sabem me fitar tão ternamente.

Os seus olhos têm um misterioso poder de atração,

que me faz sismar…

Esse olhar que veio iluminar minha alma

deixou-me cheia de sonhos!

Não sei porque gosto de fitar esses olhos castanhos.

Há neles crepitar de chamas ruflas

E claridades de luar.

Há fogo quando me fitam de perto

E sonho se de longe me fitam.

Olhos Luminosos como lhes quero!

Olhos fulgurantes como lhes estimo.

MGB

…”

Os demais escritos deixarei em um outro momento.

Maria José Lopes deixou um legado extraordinário através de seus discípulos.

Júnior Lopes