DISCURSO DE ADNEY TELES
NEGRO COSME – TUTOR E IMPERADOR DA LIBERDADE
Há 179 anos, em 17 de setembro de 1842, foi executado pelo Império Brasileiro um dos mais destacados heróis da história do Maranhão, Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme. Apesar de sua história ser um pouco fragmentada, e não se ter todas as respostas como os historiadores desejam, sabe-se que ele nasceu em Sobral – CEARÁ, por volta de 1800, e depois veio para o Maranhão. Nasceu livre e vivia de pequenos expedientes, sabia ler e escrever.
Foi preso em 22 de setembro de 1830, por ter assassinado Francisco Raimundo Ribeiro em Itapecuru-Mirim, sendo enviado à capital São Luís. Não se sabe por que motivos ou consequências esse fato aconteceu, e por isso ficam as indagações devido à falta de processo relativo a esse crime. Cosme fugiu da cadeia em 1° de maio de 1833, depois de liderar um levante de presos e ficou foragido até 1838, quando foi capturado em Codó. Neste tempo ficou escondido em vários quilombos da região de Itapecuru-Mirim.
Em dezembro de 1838, eclodiu uma importante revolta social conhecida como Balaiada, que aconteceu mesmo sem ter sido cuidadosamente preparada ou até mesmo possuir um projeto político definido. Foi uma reação e uma luta dos maranhenses contra injustiças praticadas por elites políticas e as desigualdades sociais que assolavam o Maranhão no século XIX. A revolta dos balaios caminhou rapidamente para a radicalização nas ruas, juntando-se ao movimento de escravos fugitivos, desordeiros e criminosos. Foi nessa fase da revolta que surgiram novos líderes, como o negro Cosme Bento, que até então estava preso.
Cosme fugiria novamente da prisão em outubro de 1839, e em novembro já se tinha notícias dele liderando escravos nas várias fazendas às margens do Rio Itapecuru. Dando início ao seu levante, começando a libertar escravos de determinadas fazendas por onde passava até formar o seu quilombo na Lagoa Amarela, que de acordo com registros oficiais contava com mais de 3000 escravos. No final de 1839, Cosme já era conhecido como Imperador da Liberdade.
Cosme liderava um exército de escravos, formado principalmente de africanos, visto que no Maranhão tinha um grande contingente de negros naquela época. No quilombo de Lagoa Amarela fundou uma escola para que os negros pudessem aprender a ler e escrever, o que naquela época foi um feito notável, tendo em vista que somente os mais abastados usufruíam desse benefício.
A radicalização da revolta, porém, levou a classe média a se desvincular do movimento, e até mesmo a tomar algumas medidas para contê-lo. Foi assim que esses setores acabaram apoiando as forças militares imperiais, enviadas pelo Governo central à região. As forças militares imperiais ficaram sob comando do coronel Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que entre fevereiro e setembro de 1840 já havia praticamente derrotado todos os rebelados, com exceção dos negros sob o comando de Cosme. Porém o movimento de revolta foi contido em 1841 e a insurreição foi dada por terminada somente quando as tropas legais capturaram Cosme. A captura ocorreu depois de uma sangrenta batalha realizada em Calabouço, na região do Mearim, em 7 de fevereiro de 1841.
Com a prisão de Cosme Bento, dava-se fim à Balaiada. Seu processo foi aberto em março de 1841, arrastando-se por mais de um ano. Levado a júri em um tribunal na Vila e cabeça de comarca de Itapecuru-Mirim, o julgamento foi realizado apenas em 5 de abril de 1842. Sentenciado com a pena capital, foi condenado à forca por liderar no Maranhão uma das mais temidas insurreições do povo negro já ocorridas no Brasil. À frente dos quilombolas, lutava para pôr fim à escravidão, junto com líderes como o índio Matroá, o vaqueiro Raimundo Gomes e Manoel Ferreira dos Anjos, o Balaio.
Cosme Bento foi executado na Praça do Mercado, em frente à Cadeia Pública de Itapecuru, hoje Casa da Cultura Professor João Silveira, em 17 de setembro de 1842. Um grande líder dos quilombolas, virou um símbolo da luta contra a escravidão, ficando conhecido pela região como o Zumbi maranhense.
Negro Cosme nos inspira a refletir sobre a busca do conhecimento e da ciência como conquistas a serem transmitidas, em memória da luta por liberdade e igualdade dos que o antecederam e dos que o sucederam. Continua-se até hoje a travar uma luta por visibilidade e igualdade.
Desde 2016, foi sancionada a lei nº 10.524/2016 que institui o dia 17 de setembro como data comemorativa em homenagem a Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme, líder da Balaiada, rebelião ocorrida no Maranhão e Piauí entre 1838 a 1841. Essa data visa exaltar a personagem histórica Negro Cosme, que liderou escravos de várias fazendas às margens do Rio Itapecuru e ficou conhecido como Imperador da Liberdade.
Esse importante líder também foi homenageado pelo Governo do Estado com uma praça que leva seu nome no bairro Fé em Deus e com a plataforma Negro Cosme, uma ferramenta que oferece pela internet a construção de conhecimentos em diversas áreas.
O importante ideal de liberdade deixado por Negro Cosme nos mostra e nos dá forças para combater o racismo e a busca pela igualdade racial. Um importante líder que não deve ser lembrado por sua grande bravura apenas hoje, em 2021, com 179 anos de história, mas sim para todo o sempre.
REFERÊNCIAS
A cor da cultura. Negro Cosme. Disponível em: http://antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/negrocosme. Acesso em: 26 jun. 2021.
CANCIAN, Renato. Balaiada (1838-1841) – Revolta popular no Maranhão. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/balaiada-1838-1841-revolta-popular-no-maranhao.htm. Acesso em: 26 jun. 2021.
Documentário: 178 anos da morte de Negro Cosme em 17 set 1842. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xOximN1B-8U. Acesso em: 26 jun. 2021.
Negro Cosme. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1hgWl8W6QFs. Acesso em: 26 jun. 2021.
O Imparcial. Maranhão comemora o dia do Negro Cosme. 2020. Disponível em: https://oimparcial.com.br/entretenimento-e-cultura/2020/09/maranhao-comemora-o-dia-do-negro-cosme/. Acesso em: 26 jun. 2021.
PINHEIRO, Gerson. Artigo: Hoje e sempre é dia de Negro Cosme. 2020. Disponível em: https://igualdaderacial.ma.gov.br/artigo-hoje-e-sempre-e-dia-de-negro-cosme/. Acesso em: 26 jun. 2021.